A origem dos eucariotas
Até há bem pouco tempo, parecia incontestável que os
procariotas tinham dominado a Terra por mil milhões de anos, antes de surgiram
os primeiros eucariotas. Contudo, hoje a prova está longe de ser conclusiva.
Primeiro, tal como vimos antes, as reconstruções moleculares da árvore
universal da vida não confirmam que o domínio Eucarya tenha nascido depois do Bacteria
ou do Archaea, conforme se tinha
esperado. Na realidade, de acordo com o conhecimento que temos, os três
domínios podem ter surgido mais ou menos em simultâneo. Os dados geoquímicos
relativos aos biomarcadores também têm fornecido algumas provas espantosas.
Os biomarcadores são indicadores químicos da vida, orgânicos.
Na sua maioria, são lípidos – compostos gordurosos e lustrosos, descobertos em
células vivas. Alguns biomarcadores são indicadores da vida em geral, mas
outros há que podem ser associados a reinos ou domínios específicos. Em 1999,
um investigador de Harvard chamado Jocken Brocks, juntamente com alguns
colegas, anunciou novas provas fornecidas por um biomarcador de que xistos
ricos em matéria orgânica foram descobertos na Austrália, datando de há 2,7 mil
milhões de anos. Conforme esperado, alguns dos biomarcadores eram indicadores
das cianobactérias, embora os investigadores tivessem surpreendentemente
identificado estirenos na gama de C28 a C30 – moléculas sedimentares derivadas
de esteróides. Estes esteróis de cadeias mais longas são sintetizados
unicamente pelos eucariotas, e não pelos procariotas. Assim, a prova deste
biomarcador confirma a existência de cianobactérias já eplo menos 2,7 mil milhões
de anos, mas trata-se igualmente da pista mais antiga da identificação de
eucariotas, muito anteriores a quaisquer fósseis.
Mas como poderiam os eucariotas, com a sua complexa estrutura
interna de núcleo e outros organelos, ter evoluído a partir dos simples
procariotas? A tese mais popular dá pelo nome de teoria da endossimbiose e foi apresentada por Lynn Margulis, então,
em 1967, uma jovem professora assistente da universidade de Boston. De acordo
com a sua teoria, um procariota consumia ou era invadido por outros procariotas
de menor dimensão e produtores de energia, e as duas espécies desenvolviam-se
com a finalidade de viverem beneficiando ambas da nova condição. O invasor,
mais pequeno, ficava protegido pelo seu hospedeiro maior, enquanto o organismo
recebia fornecimento de açucares. Estes invasores tornaram-se a mitocôndria das
células eucariotas modernas. Outros invasores podem ter incluído procariotas
aquáticos semelhantes a vermes (espiroquetas) – que se tornaram flagelos
ambulantes (os apêndices com forma de chicote que alguns organismos usam para
se mover) – e procariotas fotossintéticos, que se transformaram nos
cloroplastos das plantas.
O modelo da endossimbiose é extremamente atraente e alguns
dos seus aspectos foram confirmados com alguma espectacularidade. O mais
notável de todos é que a mitocôndria e os cloroplastos nos eucariotas modernos
são confirmados como procariotas, estando a mitocôndria muito próxima das
alphaproteobactérias, e os cloroplastos das cianobactérias. Daí que o mais
espantoso seja que uma célula eucariota moderna prova que os invasores
procariotas possuem o seu próprio ADN, e que coordenam as suas divisões
celulares com as divisões da maior célula hospedeira.
Muitos especialistas rejeitam, pelo menos na sua maioria, a
teoria da endossimbiose. Eles chamam a atenção para apenas a mitocôndria
constituir prova real da absorção. Não existe qualquer prova que sustente a
ideia de que o núcleo foi absorvido, e, na verdade, a absorção hoje só é
observada entre os eucariotas e não entre os procariotas. Daí que a tese
alternativa, designada como teoria dos hospedeiros proto-eucariontes , nos diga
que os eucariotas ancestrais, os chamados proto-eucariontes, já equipados com
um núcleo, absorviam realmente o procariota emissor de energia que se tornava a
mitocôndria. Mas isto não nos responde à pergunta, “De onde veio o
proto-eucarionte?” Mais dúvidas ainda são lançadas sobre a clássica teoria da
endossimbiose graças à sugestão de que nem o Archaea nem o Bacteria
parecem ser antecessores do Eucarya,
e os dados fornecidos pelo biomarcador indicam uma origem inesperadamente
ancestral dos eucariotas. Voltemos para o quadro das hipóteses!
Adaptado de “Breve história da vida”, Michael
J. Benton
Sem comentários:
Enviar um comentário